Com Armas Sonolentas, de Carola Saavedra - Os Direitos Humanos através de gerações de mulheres

Recebi o livro "Com Armas Sonolentas", da Carola Saavedra, no mês Agosto de 2022, como parte da minha assinatura da TAG Livros/Curadoria. Foi meu primeiro contato com a autora, e durante a leitura, tudo o que conseguia pensar era: porque essa mulher não é imensamente famosa no Brasil? Porque seu nome não está no stand de frente de todas as livrarias, porque não vemos entrevistas com a autora nos jornais, em podcasts, na mídia? Será que sou eu que ando tão perdida assim?

Me perguntei quantos outros autores e autoras de tamanha excelência não estão escondidos por aí, produzindo e lapidando ostensivos tesouros, que eu, como leitora, rezo para poder encontrar.


Não sei bem se é uma questão do mercado editorial brasileiro, se é falta de engajamento da população, se é apenas uma questão de sorte, ou, mais provavelmente, uma mistura disso tudo. Pensei também em quantas vezes (e de fato não foram poucas) acabei trocando a compra de um livro nacional por um consagrado autor estrageiro. Ou nem mesmo passando pelo crivo da consagração: quantas vezes privilegiei um autor estrangeiro pelo simples fato de ser estrangeiro? Também tem isso, não é?

Acreditar que as produções nacionais estão fadadas a nos deixar a desejar de alguma forma, o que não passa, obviamente, de um entre muitos enraizados preconceitos que nos foram deixados como legado de um passado colononial. Essa mania de preterir o nosso, de não investir naquilo que é nosso, porque o que "bom", "de bom gosto", sempre vem de fora, do hemisfério norte. O cinema, a música, a literatura, a moda.


Venho desconstruindo isso em mim mesma há algum tempo, e todas as vezes sinto uma pontada no peito pela minha própria cegueira, o arrependimento sobre o tempo que perdi e a descrença sobre como pude ser tão estrábica. Se você, assim como eu, costuma se perguntar, aonde estão os autores brasileiros contemporâneos desses de fazer cair o queixo, deixe-me apresenta-lo a Carola Saavedra (e a muitos outros! A cada dia mais, eu espero!).


Em "Com Armas Sonolentas", meu primeiro contato com a autora, Carola nos transporta por três gerações de mulheres e suas muitíssimo estremecidas conexões. Esses estremecimentos, que muitas vezes são rompimentos categóricos, se dão desde as disparidades de realidades e oportunidades que cercam essa três gerações (avó, mãe, e filha); expectativas criadas, as correspondidas e as frustradas; até distâncias instransponíveis, como a velhice, a língua, e a distância geográfica.


São todas mulheres itinerantes, buscando seu lugar no mundo com as informações que tem, e fazendo sua paz com aquelas que não possuem - e não vão possuir.


Somos apresentados, na primeira geração, à uma jovem menina, filha entre muitos outros filhos, que, por império da pobreza, é forçada a deixar sua casa para trabalhar na capital do Rio de Janeiro como empregada doméstica, numa situação análoga à escravidão. Ela trabalha dia e noite sem qualquer limite entre o trabalho e sua própria vida, num estado de subserviência compulsória porque não conhece outra realidade.

E, por sua humildade e falta de informação, acaba explorada décadas à fio pela família que a emprega, e da qual jamais irá pertencer.


Sua filha, Anna, fruto de um abuso do filho de seu patrão, cresceu numa realidade transitória, entre a mãe e suas limitações, e a vida que, como neta de pessoas abastadas, pode - sempre em parte, nunca de maneira plena - desfrutar. Anna me passou, ao longo da leitura, a sensação da mulher que busca transpor, de maneira definitiva, esse estado de dualidade: a realidade da mãe, como força do passado, de uma ancestralidade anterior e inegável, porém fatidicamente limitada e explorada (algo que lhe causa profunda repulsa, rancor, e desequilíbrio), e dos patrões, seus avós, seus "benfeitores" e carcereiros, que lhe oferecem uma entrada cerceada e condicional em seu próprio mundo, cheio das oportunidades que foram negadas à sua mãe.


Anna, em constante fuga de si mesma (fuga esta literal, pois ela se muda de súbito para a Alemanha), não consegue, na iminência de sua própria maternidade, num país onde ela mesma claramente não pertence, e o não pertencimento físico tem um impacto profundo sobre a personagem, abandona sua bebê num devaneio exausto e confuso.


A filha de Anna, Max, é adotada por um casal alemão frio e distante, e por eles criada como filha. Max, carregando o fardo de sua misteriosa herança, também se sente estranha na própria pele e na realidade em que cresceu. E assim, simultaneamente, cada uma das três parte numa jornada individual, que se entrelaça algumas vezes, sem nunca verdadeiramente se cruzarem, em busca daquilo que são - e que só pode ser descoberto ao enfrentarem aquilo que não são, aquilo que não fizeram.


O livro nos mostra, com perfeição, a realidade triste e infelizmente comum que atinge principalmente mulheres negras - o trabalho forçado moderno. A necessidade de trabalho, a falta de acesso a educação e à informação, a privacidade do trabalho doméstico, que dificulta a sua fiscalização, tudo isso contribui para uma realidade onde casos como o narrado no livro se proliferam, no silêncio e no desespero de quem precisa auferir sua fonte de renda da forma como pode e nas condições em que consegue, ainda que abusivas e exploradoras.

A escravidão em todas as suas formas, é tida como crime contra a humanidade, e vedada, tanto no direito interno, como no direito internacional dos direitos humanos.


Ainda, o sentimento comum entre as três personagens de "não pertencimento" é um sentimento comum quando falamos de direitos humanos, principalmente no contexto migratório e de colonização. Aqueles que deixam seu lugar de origem, seja por guerras, perseguições políticas e religiosas, ou porque almejam uma vida melhor, enfrentam, quase na totalidade dos casos, sentimentos como o relatado no livro. O sentimento de não pertencer a lugar algum, nem mesmo ao seu lugar de origem, nem mesmo ao país/lugar onde se (re)estabeleceu.

Também identificamos esse sentimento, que sufoca e tem uma especial capacidade de desestabilizar pessoas e povos, quando vemos um povo ter sua identidade destruída por alguém que o subjuga.


Na massificação da cultura ocidental, podemos ver mais e mais a extenuante luta pela preservação de identidades que não se adequam neste pradrão (inclusive pela realização massiva de procedimentos estéticos invasivos), pela manutenção de tradições ancestrais que devem ser honradas, já que perpetuam a noção de um povo que, no seu conjunto, lutou pela sua sobrevivência.


O livro também narra tristes situações de abuso em razão do gênero feminino. Mãe e filha foram abusadas, uma, sem sequer ter ciência de que o que experenciava era um abuso, e a outra, num casamento violento. Sabemos perfeitamente bem que a luta pela efetivação dos direitos das mulheres na sociedade é uma luta diária, de conscientização, de solidariedade, de políticas públicas.


Isso também é direitos humanos.


Mais do que isso, o livro nos mostra como a reconstituição (de identidades, de lugares, e por fim de nós mesmos) é, apesar de um processo difícil e impreciso, essencial para o nosso bem estar no mundo que nos cerca. Reconstituir a nossa própria humanidade é nos sensibilizar para a humanidade do outro, daquilo que não pensávamos ser ou possuir, e ainda assim, somos e possuímos.


Muitas foram, e são, as reflexões trazidas pelo livro, que com sua linguagem onírica, se propõe, quase que de maneira sonolenta, a nos instigar a fazer as conexões entre as personagens nós mesmos. A sensibilização da narrativa toca diversos pontos que, tão próximos de uma forma ou de outra de nossa própria realidade, nos convidam a gentilmente olhar para o lado... E para trás, e para frente.


Me conta! Você já leu? Ficou com vontade de ler?











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